Logo após o nascimento, o recém-nascido (RN) terá de iniciar a respiração em poucos segundos.
Seu pulmão deverá transformar-se rapidamente de um órgão preenchido de
líquido e com pouco fluxo sanguíneo em um órgão arejado e com muito fluxo de
sangue, que seja capaz de executar uma forma inteiramente diferente de
respiração, ou seja, a troca direta de gás com o meio ambiente. O sucesso no
processo de adaptação imediata à vida extrauterina depende essencialmente da
presença de uma função cardiopulmonar adequada.
Desse modo, os sinais e os sintomas de dificuldade respiratória são
manifestações clínicas importantes e comuns logo após o nascimento, sendo um
desafio para os profissionais que atuam em unidades neonatais. O desconforto
respiratório pode representar uma condição benigna, como retardo na adaptação
cardiorrespiratória, mas também pode ser o primeiro sinal de uma infecção grave
e potencialmente letal, sendo fundamental o reconhecimento e a avaliação
precoces de todo bebê acometido.
A maioria das doenças respiratórias neonatais manifesta-se nas primeiras
horas de vida, de forma inespecífica e, muitas vezes, com sobreposição de
sinais e sintomas.
No entanto, é possível alcançar o diagnóstico correto a partir da
análise cuidadosa da história clínica materna e do parto, e dos sinais e
sintomas clínicos, em conjunto com a propedêutica de diagnóstico por imagem.
Reconhecimento
Em razão das peculiaridades estruturais e funcionais ligadas à
imaturidade do sistema respiratório, as doenças pulmonares no período neonatal
exteriorizam-se clinicamente de forma característica e comum aos RN. O
conhecimento e a interpretação desses sinais são úteis para decidir o melhor
momento de início da intervenção terapêutica. Os sinais e sintomas que definem
a propedêutica respiratória estão voltados basicamente para a observação e
inspeção do RN, e podem ser agrupados naqueles que retratam o padrão
respiratório, o aumento do trabalho respiratório e a cor (Quadro 1).
Quadro 1 – Sinais e sintomas respiratórios observados no período neonatal
Taquipneia
As variações da frequência respiratória ocorrem em função da alteração
do volume corrente e da necessidade de se manter a capacidade residual
funcional (CRF). No período neonatal os valores normais variam de 40 a 60
respirações por minuto.
Considera-se taquipneia quando, em repouso ou durante o sono, a
frequência respiratória mantém-se persistentemente acima de 60 movimentos por
minuto.
Essa condição, apesar de inespecífica, é um dos sinais precoces presente
na maioria das doenças com comprometimento do parênquima pulmonar, incluindo a
síndrome do desconforto respiratório (SDR), a pneumonia e a atelectasia. A
taquipneia pode apresentar-se isoladamente ou acompanhada de outras alterações
respiratórias. A taquipneia isolada é mais comum nas alterações extrapulmonares
como hipertermia, sepse, distúrbios metabólicos e cardiopatias congênitas.
Apneia e respiração periódica
A apneia é um distúrbio do ritmo da respiração.
É caracterizada por pausa respiratória superior a 20 segundos, ou entre
10 e 15 segundos se acompanhada de bradicardia, cianose ou queda de saturação
de oxigênio.
Os episódios de apneia que ocorrem nas primeiras 72 horas de vida
geralmente resultam de asfixia perinatal, infecções, hemorragia intracraniana,
hipotermia, obstrução de vias aéreas, convulsões e outras lesões do sistema
nervoso central. Por outro lado, a apneia da prematuridade raramente
manifesta-se antes de 48 horas de vida e sua incidência está diretamente
relacionada à idade gestacional. Acomete cerca de dois terços dos neonatos com
idade gestacional abaixo de 28 semanas. A apneia deve ser diferenciada da respiração
periódica, que é um padrão respiratório particular do RN pré-termo,
caracterizado por períodos de 10 a 15 segundos de movimentos respiratórios,
intercalados por pausas com duração de 5 a 10 segundos cada, sem repercussões
cardiovasculares.
Batimento de asas nasais
O batimento das asas nasais representa a abertura e o fechamento cíclico
das narinas durante a respiração espontânea. O RN apresenta respiração
exclusivamente nasal. Acredita-se que a dilatação das narinas durante a
inspiração diminua a resistência da via aérea superior, reduzindo o trabalho
respiratório.
Gemido expiratório
O gemido expiratório resulta do fechamento parcial da glote (manobra de
Valsalva incompleta) durante a expiração para manter a CRF e prevenir o colapso
alveolar nas situações de perda de volume pulmonar.
O gemido expiratório é um sinal muito comum nos RN acometidos pela SDR.
Head bobbing
É um sinal de aumento do trabalho respiratório e representa o movimento
para cima e para baixo da cabeça, a cada respiração, pela contração da
musculatura acessória do pescoço.
Retrações torácicas
Decorrem do deslocamento para dentro da caixa torácica, a cada
respiração, entre as costelas (intercostal), nas últimas costelas inferiores
(subcostal), na margem superior (supraesternal) e inferior do esterno
(xifoide). São observadas com frequência no período neonatal, em particular no
RN prematuro, devido à alta complacência da caixa torácica (caixa mais
maleável). As retrações aparecem quando os pulmões apresentam-se com complacência
baixa (“mais duro”) ou quando há obstrução de vias aéreas superiores ou
alterações estruturais do tórax. Nas situações de baixa complacência pulmonar,
como na SDR, durante a inspiração um excesso de pressão negativa é gerado no
espaço pleural para expandir os pulmões. Como a caixa torácica é muito
complacente, a cada inspiração aparecem, inicialmente, as retrações subcostais
e intercostais. Se a doença progride, o RN aumenta a força contrátil do
diafragma na tentativa de expandir os pulmões. Observa-se, então, protrusão do
abdome e, por causa da alta pressão negativa no espaço pleural, toda a porção
anterior do tórax, incluindo o esterno, desloca-se para dentro, produzindo o
movimento característico em gangorra ou respiração paradoxal. O boletim de Silverman-Andersen4
é um método clínico útil para quantificar o grau de desconforto respiratório e
estimar a gravidade do comprometimento pulmonar (Figura 1). São conferidas
notas de zero a 2 para cada parâmetro. Somatória das notas inferior a 5 indica
dificuldade respiratória leve, e quando é igual a 10 corresponde ao grau máximo
de dispneia.
Figura 1 – Boletim de Silverman-Andersen
Cianose
Pode-se classificar a cianose em localizada ou periférica, e
generalizada ou central. A primeira, também conhecida como acrocianose, aparece
nas regiões plantares e palmares. É um sinal benigno e comum no período
neonatal, não representando doença sistêmica grave. A cianose central,
envolvendo a mucosa oral, é observada quando a concentração de hemoglobina
reduzida excede 5g/ L, condição comum durante a hipoxemia grave. A cianose
central, quando presente, deve ser sempre investigada, procurando-se afastar
cardiopatias congênitas, hipertensão pulmonar e afecções graves do parênquima
pulmonar.
Identificação dos sinais de alerta
Após o reconhecimento da insuficiência respiratória, deve-se avaliar a
gravidade do quadro identificando os sinais de alerta que representam uma
condição de ameaça à vida e necessidade de instituição imediata de suporte
ventilatório (Quadro 2).
Quadro 2 – Sinais e sintomas respiratórios que indicam condição grave e necessidade de intervenção imediata
Diagnóstico diferencial
Para o diagnóstico diferencial da dificuldade respiratória do RN são
importantes os dados da anamnese e do exame físico, além dos exames
laboratoriais. As possibilidades diagnósticas são
muito diversas. Qualquer condição
que, por exemplo, dificulte a chegada do oxigênio no cérebro levará à expressão
clínica de dificuldade respiratória (Figura 2).
Fonte: MS/SAS. TTRN – taquipneia transitória do RN SDR – síndrome do desconforto respiratório SAM – síndrome de aspiração do mecônio
Referência: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido : guia para os profissionais de saúde / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – 2. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2012.
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